Ele faz parte da história do e-commerce brasileiro

Na hora de escolher o curso na faculdade, German Quiroga, que encomendava e desmontava computadores na adolescência, escolheu engenharia eletrônica, no IME (Rio de Janeiro) porque “se não aprendesse naquele momento não ia aprender nunca”. O então estudante gostava de desafios. Agora, enquanto CEO da Nova Pontocom, o executivo tem pela frente a busca da liderança no varejo online, que hoje pertence à B2W – empresa que Quiroga ajudou a construir.

A primeira grande escapada da zona de conforto de Quiroga ocorreu logo ao sair do IME, quando, perante convites de emprego em empresas grandes, ele optou por montar uma pequena empresa para “brincar” com tecnologia em multimídia e depois ir para uma produtora, a TV1. “Achei mais divertido, embora arriscado, pegar um ‘negocinho’ meu e começar a brincar”, disse.

Na TV1, o executivo participou da criação da TV1.com, um braço de internet da produtora – quando mal existia internet no Brasil, início da década de 90. Entre os clientes dessa época estavam o Grupo Martins, Antártica, Banco do Brasil, HSBC e Volkswagem, no que Quiroga descreve como uma época romântica da internet. “Você não conseguia vender o projeto de internet para a área de marketing, tinha que vender para a área de TI, porque o marketing perguntava onde comprar esse negócio de internet”, disse.

Um projeto feito para a Antártica, no período, constituiu na criação do Antártica Net Club, um início de mídia social. “Pena que a gente não alavancou como poderia ter alavancado, mas já tinha conceito de e-mails grátis, de afiliação ao clube e de poder trocar mensagem entre membros”, disse Quiroga. A parceria vendeu para a IBM o sistema de leitura de código de barras com preços, usado pelos supermercados atualmente, a ferramenta é conhecida como “São Tomé”.

Dos trabalhos com a internet, veio um convite para fazer parte da startup do Submarino, e outro para integrar a startup da Americanas.com. No dia 9 de setembro de 1999, às 09 horas da manhã Quiroga estava na reunião da Americanas.com, mais uma fase romântica. “Vi que a oportunidade ali era grande, já estava acompanhando o que estava acontecendo lá fora com Amazon, mas tinha algumas dúvidas se alguma empresa de varejo ia tentar uma inciativa séria e organizada de e-commerce e me convenceram”, disse.

No primeiro ano, a Americanas.com obteve faturamento foi 25 milhões de reais, o segundo ano ficou em cerca de 50 milhões de reais, e ela assumiu a liderança. Realmente eram tempos de muito romantismo na internet.

De lá para cá, o mercado cresceu bastante, para se ter uma idéia, em 2010, a Nova Pontocom, composta pelo e-commerce da Casas Bahia, Ponto Frio, Extra, Ponto Frio Atacado e e-hub, faturou 2,7 bilhões de reais em 2010 e ela nem é a líder no segmento, fica atrás da B2W (dona do Submarino e da Americanas.com), que faturou cerca de 4 bilhões de reais em 2010.

A internet ainda é relativamente romântica na visão do executivo, “mas hoje você já trata com uma massa de consumidores muito maior e exigente”, disse. Ele compara o romantismo da internet com os primeiros celulares, que podiam ser grandes, caros e com pouca bateria. “O comércio eletrônico no início era isso, pequeno, com poucas opções de produtos, poucas opções de concorrentes”, disse. Não havia, por exemplo, empresas que faziam a conexão entre o site e os meios de pagamento.

A era B2W durou até 2004 para Quiroga. Na época, Anna Saicali substituiu Eduardo Chalita na presidência da Americanas.com e ele achou que a direção seria maior para o varejo físico e saiu da empresa. Sem poder trabalhar na concorrência, por cláusulas contratuais, ele foi atuar no e-commerce de imóveis com a Cyrela por um período.

“Internet causa dependência, eu queria trabalhar na concorrência, mas estava impedido”, disse. O comércio eletrônico da Cyrela chegou a vender 30% dos imóveis dela pela rede. Enquanto isso, ele estava envolvidos com outros planos… O e-hub.

E-hub

Quiroga criou o e-hub com dois executivos com quem trabalho na Americanas.com (Renato Drummond e o próprio ex-presidente, Chalita) e Eduardo Castro, da Sack’s’. O objetivo da empresa era prestar serviços para varejistas e indústrias que quisessem entrar no e-commerce.

O grupo pensou que a forma mais prática de obter capital fosse pela associação com um varejista. “Até explicar para um investidor financeiro seria complicado”, disse. A dificuldade estava em convencer alguém a financiar não só a criação do seu comércio eletrônico, mas também um gerador de concorrentes. “Na época o líder de mercado tinha 4 bilhões de reais, havia cinco players empatados em segundo, com 200 milhões”, disse.

A promessa, com o e-hub, era a vice-liderança isolada.  Em troca, o pedido era capital, participação no negócio e autonomia.  “Não bastasse tudo isso, tínhamos que pedir dinheiro pra montar um gerador de concorrentes e esse gerador de concorrentes, você não é controlador”, disse. O negócio foi fechado com o Ponto Frio, e em 2008 surgiu o pontofrio.com e o e-hub.

A longa relação com o Pão de Açúcar

O Pão de Açúcar entrou na vida de Quiroga ainda em 1993, quando ele participou da criação do Pão de Açúcar Delivey. A venda era feita por meio de CD room ou quiosques em condomínios. Bem diferente do que ele foi fazia no Pontofrio.com quando a rede foi adquirida pelo Grupo de Abílio Diniz. O e-hub começou então a negociar para fazer o varejo eletrônico do Extra, “quando estávamos quase fechando, o PDA comprou a Casas Bahia”. Isso foi o começo de um negócio maior.

“Eles entenderam o e-hub e demandaram que ele viesse pra dentro do guarda-chuva, perdemos o controle do e-hub”. A participação que era de 55% agora é de 6% em tudo (pontofrio.com, casasbahia.com, e-hub e Nova Pontocom).  Agora, Quiroga está à frente da Nova Pontocom.

“Ele é um empreendedor nato, ele é excelente empreendedor, por isso se cerca de excelentes executivos e assim se desenvolveu como executivo, esse lado executivo não era natural dele. Ele desenvolveu”, diz Beto Ribeiro, roteirista e escritor que trabalhou com Quiroga na TV1.com, na Americanas.com e na Cyrela.com e fez consultoria para o e-hub.

Quiroga não vê problemas em estar mais ao lado dos negócios. “De execução estou mais afastado, a confecção do código, eu me afastei há muito tempo, talvez um dos meus sonhos seja mais lá pra frente poder desenvolver um aplicativo pra ipad sozinho. Uma opção que eu fiz desde o início foi ir mais para o lado de negócios que de desenvolvimento”, disse Quiroga.

O executivo divide os dois presidentes que teve na Americanas.com em diferentes momentos do e-commerce no Brasil. Para ele, na primeira fase era necessário um empreendedor que abrisse mata fechada com facão. No segundo momento, o executivo teve que asfaltar. Seu papel, acredita, é ver que apenas que uma borda foi asfaltada e asfaltar o continente todo. O comércio eletrônico agora tem menos romantismo e, em contrapartida, mais concorrentes.

Fonte: Exame

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